Luz nas idéias! Malcolm Gladwell no Brasil.
Você já parou para pensar o quanto deixamos de prestar
atenção a pequenos detalhes no dia-a-dia, incluindo-se
aí pessoas, situações, e que acabam fazendo toda
a diferença? Um e-mail que deixa de ser respondido, uma pessoa
que não é cumprimentada, um colaborador preterido quando
tem a competência necessária para um projeto. Aquela idéia
simples e que não requer um grande orçamento. Em tempos
de grandes campanhas publicitárias, mega orçamentos, altos
executivos, não temos a noção exata do por que
de um produto ou idéia não alcançar o desempenho
programado em campanhas assertivas e coordenadas por experientes profissionais,
e outros que ultrapassam o objetivo proposto e se transformam em desejo.
As empresas rendem-se à órbita do marketing como se toda
a vida de um produto se resumisse a planilhas, projetos, pesquisas,
gráficos, mas se esquecem de um ponto em comum a todo o mercado:
pessoas. E qual o propósito das ações de marketing
a não ser impactar pessoas, criar produtos e serviços
que atendam necessidades físicas ou emocionais do consumidor
de uma maneira simples o suficiente para serem rapidamente absorvidos,
adaptados ao cotidiano.
O defensor de conceitos como esses é o canadense Malcolm Gladwell,
que esteve no Brasil durante um evento promovido pela HSM,
o Fórum Mundial de Estratégia & Marketing. O jornalista,
que faz parte da equipe da revista New Yorker, está em seu segundo
livro, e já é um dos palestrantes mais requisitados no
meio corporativo por questionar a eficácia de orçamentos
milionários e falar sobre produtos e conceitos que se espalham
como epidemias. Em seu livro “O Ponto de Desequilíbrio”
ele fala sobre o quanto de tempo e dinheiro perdemos com grandes campanhas,
e a resposta muitas vezes está na simplicidade das idéias,
aquelas que germinam como pequenas sementinhas e se espalham como vírus,
verdadeiras epidemias. Ele associa o sucesso de idéias a produtos
que mudam a percepção das pessoas, produtos esses que
se adaptam às necessidades do público de uma maneira simples,
que não exigem grande conhecimento para serem manipulados ou
experts que decifrem manuais.
Essa simplicidade pregada por Malcolm Gladwell não está
atrelada a grandes orçamentos, mas sim a pessoas criativas, o
que nem sempre significa o melhor executivo da empresa, mas ao que ele
chama de conectores, e mais uma vez, os que pensam com simplicidade
e têm ótimo relacionamento com pessoas. Esses conectores
detêm o que ele chama de poder social, o que não implica
necessariamente em fazer parte da alta hierarquia da empresa, ou compartilhar
do poder econômico, mas aquele que tem o talento do convencimento
natural, do relacionamento. São aquelas pessoas com quem conversamos
todos os dias e que fazem questão de cumprimentar a todos quando
chegam à empresa, aquelas pessoas a quem pedimos uma indicação
ao comprarmos um livro, um imóvel, um novo investimento, ou conhecermos
um novo restaurante, um roteiro de viagem. Malcolm Gladwell observa
que esses conectores têm memória privilegiada e mantém
bom relacionamento com sua rede de contatos. Eles recordam nomes, situações,
datas de aniversário, retornam ligações telefônicas
constantemente, respondem aos e-mails, tudo isso de forma harmônica,
natural e simplista de quem o faz por prazer. Conectores acompanham
um maior número de pessoas ao mesmo tempo, mundos sociais heterogêneos.
O contato social é utilizado para manter seus vínculos
sociais. Conectores desencadeiam as propagandas boca a boca, eles detêm
o poder de se relacionar com grupos culturais diferentes que jamais
conversariam entre si. Os resultados desse processo, muitas vezes intuitivo,
são produtos que se transformam em objetos de desejo, livros
que se transformam em best-sellers.
O autor fala do crescente isolamento a que nos condicionamos com a evolução.
As organizações já estão se partindo em
pequenas células de identificação, o que também
acontece com o consumidor que não mais pertence a um mesmo grupo.
Quanto mais complexo o mundo, mais nos retraímos. Os conectores
são a ponte entre grupos que não interagem, e o que determina
o sucesso de um produto ou idéia. Como epidemias. A idéia
não é a mensagem, mas o mensageiro.
Perguntado se esse talento pode ser desenvolvido, o jornalista afirmou
que não podemos inventar essas pessoas, elas nascem com esse
talento, e quando forçado pode parecer falso. Ele ainda vai mais
longe e demonstra total desacordo com as pesquisas de consumidor que
não traduzem a intenção real do público.
Malcolm Gladwell fala de um consumidor que se retrai frente à
quantidade excessiva de informação a ponto de ficar imune
aos apelos constantes das campanhas, e chega até a perder a capacidade
de opinar. Ele afirma que as pesquisas de opinião devem ser interpretadas
no mesmo nível que um psiquiatra o faria, que os pesquisadores
deveriam observar o comportamento do consumidor, mais do que perguntar.
Não é a toa que mudamos nossos conceitos sobre marketing,
vendas e relacionamento após lermos o livro.
Ao finalizar a palestra dirigida a um público formado por altos
executivos e empresários, mulheres e homens formadores de opinião,
Malcolm Gladwell nos alerta para que foquemos nossa atenção
em idéias simples, e apostemos principalmente em pessoas. O livro
é uma visão inovadora na forma de entendermos o marketing,
indispensável não só para empresas e produtos,
mas também para o desenvolvimento de pessoas.
Luz nas idéias!!!
Lia
Habib escreve para "Profissional & Negócios". Agosto/05
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