Lia Habib >>> Jornalista: Profissão Mulher

Liderança servidora

“Falar não só da mulher, mas do resgate do feminino, trazendo para esse fim de Era, para esse planeta muito machucado, características como a compaixão, perdão e a perspectiva do outro”. Assim iniciou-se a conversa com Cristina Carvalho Pinto, presidente do Grupo Full Jazz de Comunicação. A empresária representou o Brasil, como palestrante convidada, no “The Women’s Forum for the Economy and Society” (www.womens-forum.com). A primeira edição do evento aconteceu entre os dias 13 e 15 de outubro de 2005, em Deauville, na França, quando mulheres e homens, líderes de diferentes segmentos da sociedade, se reuniram para falar sobre liderança com foco na mulher em suas diferentes áreas de atuação nos negócios, na educação, saúde e meio-ambiente.

Nesses três dias de evento, e entre conversas com representantes de diversos países, Cristina nos fala sobre a necessidade mais que urgente de um novo modelo de liderança por parte de homens e mulheres, um comportamento que nos torne mais humanos, um estado feminino do ser - que não é uma questão de sexo - e beneficia a tudo o que é vivo, incluindo a espécie humana.

Convivendo com equipes formadas por homens e mulheres, ela percebe as novas gerações muito mais sensíveis à questão da vida do que o que temos no chamado modelo masculino que impera nas organizações, e que levou a humanidade à fome, à miséria, à depressão, à dependência química, ao desamor. Ela faz questão de deixar clara a visão que faz desse modelo masculino, de que ele não é uma invenção exclusiva dos homens, mas um modelo alimentado pela humanidade, a vigência do yang, o símbolo taoísta voltado para a conquista, e que se apresenta no comportamento também das mulheres. “Homens foram criados por mães que reforçaram esse modelo masculino”, afirma Cristina Carvalho Pinto.

A empresária rejeita expressões como “posição de comando”. O conceito de liderança para ela está longe do poder de chefiar, aquele que manda, que comanda, um conceito externo ao ser que ocupa esse posto. Por mais feminino que seja o figurino, o conteúdo de muitas profissionais é carreira e posto de comando, um poder externo a elas. O ambiente é transformado pela presença de um verdadeiro líder, aquele que emana a verdadeira liderança, seja uma mulher ou um homem. Esse sim é o poder verdadeiro. O modelo feminino resgata o olhar da grande mãe em homens e mulheres, o olhar nutridor, e não questionador. O olhar que só acolhe e nunca julga. Ele é fértil, cálido. Esse olhar pode reconstruir o nosso planeta. 

O modelo masculino presente em nossa cultura faz com que Cristina Carvalho Pinto se surpreenda no fórum, na presença de mulheres de outros países de terceiro mundo, ministras de estado, que ocupam altos cargos, também palestrantes convidadas assim como ela: “Por que é que eu tenho que me impressionar ao encontrar uma mulher brilhante. É o mesmo que ficar ofendida quando alguém afirma que uma brasileira não pode ser inteligente.

Temos que nos policiar o tempo todo para não perpetuarmos o mesmo comportamento”. É muito claro a ela que ainda há uma predominância de mulheres que hoje ocupam posições de liderança, e que vivem no modelo masculino, embora não percebam. Elas têm um discurso da importância da mulher na sociedade, mas a linguagem corporal, o aspecto físico, o conteúdo do discurso ainda representam o modelo masculino: “É um fim de era e estava presente no fórum, muito mais nas americanas e européias. Elas são frias, diretas, objetivas e questionadoras”.

O modelo feminino cresce no mundo e não tem sexo. O processo criativo da mulher é abstrato, considera mais o lado intuitivo e menos o objetivo: “A grande diferença é que a mulher não está aprisionada à meta e presta atenção ao processo, e no meio do caminho está o ser humano. O cuidar é da natureza da mulher”. Cristina atribui esta mudança de consciência a um convite para participar de um encontro do Brahma Kumaris, na Índia, em 2003, o que ela avalia como impossível de descrever com palavras, e onde ela diz que ficou literalmente no colo de Deus.

 

Lia Habib escreve para "Profissional & Negócios". Edição 94 / Ano9
Site da revista: www.rhcentral.com.br